Vejo que a sociedade vive uma explosão de intolerância e desrespeito ao “diferente”. Seja em qualquer área – sexual, étnica, religiosa –, o que é diferente de mim, é ruim.
E venho percebendo, estarrecido, que o próximo alvo é um grupo de pessoas que vem crescendo cada vez mais quanto mais cresce a consciência das pessoas em relação aos animais e o meio ambiente: os vegetarianos.
Começa em forma de “brincadeira”, mas pode aos poucos se transformar realmente em algo sério.
Participante de redes sociais, como o Facebook, primeiro eu recebi esta “brincadeira” abaixo:

Depois, recebi esta “mensagem” (que me recuso a encarar como brincadeira):

Percebam que, de uma “brincadeira”, chegamos a uma ofensa. Qual será o próximo passo?
E, vejam, são pessoas teoricamente esclarecidas que as reenviam.
[Espero, realmente, que estas pessoas não comecem a reenviar “brincadeiras” relacionadas às orientações sexuais dos outros, opções religiosas ou, sei lá, origem étnica.]
Bom, quanto ao primeiro “cartaz”, comparar uma alface a um animal mamífero com o sistema nervoso bem desenvolvido como o são o boi e o porco, por exemplo, é tão infantil que levarei, realmente, como uma brincadeira que não merece maiores comentários.
A não ser que as pessoas que repassam isso como algo “sério” achem a mesma coisa uma pessoa dar um tapa num mosquito, estraçalhando-o, e dar uma marretada na cabeça de um cachorro.
Comparações esdrúxulas.
Quanto ao segundo, sendo mais sério e com a pretensão de desmistificar o vegetarianismo por conta dos outros usos de animais, merece alguns comentários.
Em primeiro lugar, apesar de não sabermos, com precisão, tudo o que utiliza fontes animais, sabemos que muitas coisas utilizam.
Duvido que seja tudo aquilo que está ali. Uma pequena pesquisa na internet poderá cortar um monte daqueles itens.
Talvez muitos deles tenham utilizado anteriormente fontes animais, mas com as novas tecnologias, as novas descobertas, as criações de novos materiais, eles foram sendo substituídos. Como muitas das coisas ainda estão sendo feitas e ainda o serão.
É possível, hoje, por exemplo, utilizarmos produtos de higiene e diversos outros produtos não testados em animais. É uma tendência, assim como a substituição das fontes animais pelas vegetais, ou mesmo sintéticas, em diversas áreas. Já ouviram falar do couro vegetal? Pois é.
Em segundo lugar, aquele tipo de discurso simplista é como dizer “eu jogo lixo no chão e não vou parar de fazer isso porque não tem jeito mesmo, o gari vai ter que varrer porque quando venta caem folhas das árvores e vive cheio de poeira nas ruas”.
Ou como dizer que “eu roubo mesmo, o país é corrupto, se eu não roubar, outro vai fazer, então que seja eu!”.
Outras comparações esdrúxulas.
Talvez o que essas pessoas queiram é ficar buscando desculpas para que continuem a fazer o que gostam, o que lhes dá prazer, independente de qualquer consequência que seus atos venham a trazer.
E, pior, fazem isso atacando aqueles que buscam, por outro lado, fazer a diferença de alguma forma.
E, mais engraçado ainda, talvez a maioria dos que acham essas brincadeiras engraçadas seja contra rodeios, contra maltratar animais como gatos e cachorros e ficam repassando, ao mesmo tempo, mensagens do tipo
“Viva meu bichinho”:

ou
“não abandone seus animais” :

ou
“Peguem esses filhosdaputa!”

Ora, só amamos os cachorrinho e os gatinhos? Só estes têm direito à vida e à benevolência humana?
Os outros podem ser presos, torturados, maltratados, degolados, submetidos a uma série de absurdos para nossa alimentação?
Ah, sim, a alimentação… essa é a diferença… está na natureza do ser humano ser carnívoro, por isso ele pode fazer qualquer coisa com os animais, desde que seja para se alimentar…
Pode, por exemplo, forçá-lo a comer quilos de comida até seu fígado estragar (Patê do foie gras); pode ser mantido preso e imexível até crescer com uma carne super-macia (Carne de vitela)…
[Veja outros detalhes de como os animais são tratados porque somos “carnívoros por natureza”.]
Para essas pessoas, o que não pode é morrer em um rodeio, mas pode morrer com um tiro na cabeça ou um corte no pescoço sangrando até a morte…
Acredito que seja por isso que muitos “esclarecidos” ainda não querem nem saber se a madeira que compra é de desflorestamento ou não; se as roupas que compra vem de trabalho infantil ou escravo ou não; se a peça do carro que comprou muito mais barata vem de roubo ou não; se o CD/DVD é pirateado ou não; se o dinheiro que ganham vem de ações corruptas ou não e por aí vai.
Cada um sabe de suas ações e as consequências de suas ações.
Mas, se não mudarmos coletivamente, se a sociedade não perceber que sua cultura, suas ações coletivas e individuais são as mesmas que trazem consequências a nós mesmos – violência, desmatamentos, mudanças climáticas, perda da qualidade de via – vamos caminhar para o abismo.
Felizmente, uma grande parcela da população e, cada vez mais, mais pessoas vêm percebendo isso e mudando seus hábitos.
Para mim, é uma questão de tendência, é o caminho, não tem volta.
Mesmo que alguns poucos esclarecidos e insensíveis às questões ainda tentem manter seu estilo de vida perdulário sem querer nem saber das consequências de suas ações, futuramente estaremos mudados.
E, futuramente, o uso de animais será cada vez menor em todos os setores industriais e alimentares.
Quem viver verá.
Por fim deixo dois recados retirados deste site:


Abraços,
Declev Reynier Dib-Ferreira
Não como carne e tomo cuidado com todas as minhas ações

