Este ano começou com muitas mortes.
Fora as milhares pelo mundo (terremoto no Haiti, aviões caindo, etc.), muitos conhecidos meus ou de conhecidos meus.
Meus avós maternos tinham uma casa em Araruama, na qual passei indo toda minha infância e boa parte de minha adolescência.
Lá tinha um caseiro e sua família, numa casinha modesta nos fundos do quintal.
O caseiro morreu, depois meu avô.
Continuamos indo lá por muitos anos, convivendo com a mulher dele, que nunca fazia nada na casa, mas morou de graça por muitos longos anos, não pagando água, luz, aluguel…
Minha vó, depois de algumas indas e vindas ao hospital, morre.
Já íamos muito pouco à casa. Falei com saudosismo de uma árvore que não mais existe lá, em uma poesia.
Certa vez fui lá e encontrei a caseira (ou moradora dos fundos). Perguntou-me de minha vó. Vi o rosto e as interjeições de surpresa, quando falei do ocorrido.
Tempos depois, ao queremos vender a casa, ela quis “indenização” pelos serviços [não] prestados.
Pois é, apesar de viver de graça por muitos longos anos e não fazer nada além de morar lá, ela quis dinheiro para sair.
Depois de muito tempo em um empurra-empurra, ao vender-se a casa, ela recebeu o que queria.
Fiquei sabendo esta semana que ela morreu.
Não sei se aproveitou o dinheiro, mas não importa.
Fiquei pensando na minha infância (eu brincava com o filho e as filhas dela), minha juventude, os momentos que passamos lá.
Pensei: acabou.
Morreram meu avô, m inha avó, os caseiros e a casa foi vendida.
O que mais acabará para mim, daqui a alguns anos?


