Cena 1
Uma pessoa em pé olha a paisagem da janela, ao longe, enquanto outros estão atrás dele, observando-o.
Mordomo vem trazer cafezinho, biscoitos, whisky, empurrando um carrinho luxuoso. Uma governanta serve bebidas aos presentes.
“Temos que fazer alguma coisa pra aparecer…” – fala a pessoa, ainda olhando pro horizonte, coçando a barba.
“Mas mais presidente?!?” – Responde o aspone direto.
Cena 2
O presidente se vira devagar, mãos pra trás, olhar profundo – “Claro, meu filho… você ainda tem muito o que aprender…”
Outro aspone se dirige ao primeiro: “E temos que botar o nome dela na boca do povo, mané!”
Presidente pega o telefone em cima da mesa, clica um botão e fala pra secretária: “Dona Cotinha, me liga com o Carlão”.
Ele olha a todos com olhar profundo.
Cena 3
O telefone toca. Presidente atende: “Carlão, me diz aí onde tem uma obra nossa num lugar pobre pra gente visitar. (…) Não, não… não precisa ser para inaugurar, pode ser só uma visita. (…) Que pegar mal o cacete!, eu faço o que quero, pô! Afinal, eu sou ou não sou o presidente! Vê logo essa merda!”.
Bate o telefone com força.
Vira-se pra janela.
Cena 4
O presidente continua olhando ao horizonte pela janela, coçando a barba, enquanto os 15 aspones coçam o saco, atrás dele.
O telefone toca novamente. Presidente atende: “Fala Carlão, onde é? (…) Hum… ótimo, ótimo… (…) Tem problema não, se não fizemos ainda, vamos fazer, então tá bom”.
Desliga o telefone.
Cena 5
O presidente virá-se pros aspones, dando ordens de um a um: “Agora vamos botar pra quebrar, liga pro prefeito de lá, diz que vamos lá semana que vem. Eu conheço aquele fim de mundo, tem poeira pra cacete e é um calor dos infernos. Fala pra ele que não quero poeira nem calor pra cima de mim. Mete todo mundo nessa caravana, quero uma festança cheia de gente. Freta um ou dois aviões. Liga pra imprensa, manda a candidata meter mais botox na cara, pra ficar bonita! Compra aqueles quitutes que eu gosto e aquela bebida de sempre. Manda botar uns tapetes vermelhos pra impressionar o povo. Distribui umas cestas por lá, pro pessoal ficar mais feliz. Vê se tem muita gente por lá recebendo a Bolsa. Se não tiver, manda mais pra lá.”
Cena 6
Um dos aspones, temeroso, levanta o dedo timidamente.
“Fala logo, o que é?”!?”, grita o presidente.
“Senhor presidente…”, fala com voz trêmula o aspone: “… essa obra não tá nem no comecinho direito… levar um monte de gente e gastar isso tudo só pra visitar a obra… o pessoal não vai achar que é desnecessário não? E ainda levar a candidata… não vão dizer que é campanha fora de hora com dinheiro do povo?”
Cena 7
Silêncio total.
Pânico nos semblantes dos aspones.
Cena 8
Rosto do presidente se transforma, de reluzente para carrancudo.
Cena 9
“PÔÔÔÔÔRA!!!” – grita o presidente – “Eu já disse que eu faço o que quero nessa merda de país!!! Eu gasto o dinheiro que quero! Viajo pra onde eu quero! Falo o que eu quero!!! Compro o que eu quero! PÔRRA!!! Você ainda não aprendeu!?!? Quem for contra eu compro, pôrra! Que merda é essa? Caralho! Quem contratou esta besta!?!?”
Um dos aspones, o que parece mais íntimo e está mais próximo ao presidente, cochicha ao seu ouvido: “Ele é apadrinhado do baixinho…”
Cena 10
O presidente se acalma, olha o aspone, caminha em sua direção, passa o braço por cima de seu ombro e caminha com ele em direção à porta, dizendo “Filho, filho… você ainda tem muito o que aprender… vem comigo, você vai gostar da viagem e da festa… depois a gente chama todo mundo de louco e de oposição irresponsável, fala que ninguém nunca fez isso pelo brasil, essas coisas… Você vai ver, não vai dar em nada…”
Declev Reynier Dib-Ferreira
Espectador da peça “Brasil dos Absurdos”