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A vistoria de obra

Thursday, December 17th, 2009

Cena 1

Uma pessoa em pé olha a paisagem da janela, ao longe, enquanto outros estão atrás dele, observando-o.

Mordomo vem trazer cafezinho, biscoitos, whisky, empurrando um carrinho luxuoso. Uma governanta serve bebidas aos presentes.

“Temos que fazer alguma coisa pra aparecer…” – fala a pessoa, ainda olhando pro horizonte, coçando a barba.

“Mas mais presidente?!?” – Responde o aspone direto.

Cena 2

O presidente se vira devagar, mãos pra trás, olhar profundo – “Claro, meu filho… você ainda tem muito o que aprender…”

Outro aspone se dirige ao primeiro: “E temos que botar o nome dela na boca do povo, mané!”

Presidente pega o telefone em cima da mesa, clica um botão e fala pra secretária: “Dona Cotinha, me liga com o Carlão”.

Ele olha a todos com olhar profundo.

Cena 3

O telefone toca. Presidente atende: “Carlão, me diz aí onde tem uma obra nossa num lugar pobre pra gente visitar. (…) Não, não… não precisa ser para inaugurar, pode ser só uma visita. (…) Que pegar mal o cacete!, eu faço o que quero, pô! Afinal, eu sou ou não sou o presidente! Vê logo essa merda!”.

Bate o telefone com força.

Vira-se pra janela.

Cena 4

O presidente continua olhando ao horizonte pela janela, coçando a barba, enquanto os 15 aspones coçam o saco, atrás dele.

O telefone toca novamente. Presidente atende: “Fala Carlão, onde é? (…) Hum… ótimo, ótimo… (…) Tem problema não, se não fizemos ainda, vamos fazer, então tá bom”.

Desliga o telefone.

Cena 5

O presidente virá-se pros aspones, dando ordens de um a um: “Agora vamos botar pra quebrar, liga pro prefeito de lá, diz que vamos lá semana que vem. Eu conheço aquele fim de mundo, tem poeira pra cacete e é um calor dos infernos. Fala pra ele que não quero poeira nem calor pra cima de mim. Mete todo mundo nessa caravana, quero uma festança cheia de gente. Freta um ou dois aviões. Liga pra imprensa, manda a candidata meter mais botox na cara, pra ficar bonita! Compra aqueles quitutes que eu gosto e aquela bebida de sempre. Manda botar uns tapetes vermelhos pra impressionar o povo. Distribui umas cestas por lá, pro pessoal ficar mais feliz. Vê se tem muita gente por lá recebendo a Bolsa. Se não tiver, manda mais pra lá.”

Cena 6

Um dos aspones, temeroso, levanta o dedo timidamente.

“Fala logo, o que é?”!?”, grita o presidente.

“Senhor presidente…”, fala com voz trêmula o aspone: “… essa obra não tá nem no comecinho direito… levar um monte de gente e gastar isso tudo só pra visitar a obra… o pessoal não vai achar que é desnecessário não? E ainda levar a candidata… não vão dizer que é campanha fora de hora com dinheiro do povo?”

Cena 7

Silêncio total.

Pânico nos semblantes dos aspones.

Cena 8

Rosto do presidente se transforma, de reluzente para carrancudo.

Cena 9

“PÔÔÔÔÔRA!!!” – grita o presidente – “Eu já disse que eu faço o que quero nessa merda de país!!! Eu gasto o dinheiro que quero! Viajo pra onde eu quero! Falo o que eu quero!!! Compro o que eu quero! PÔRRA!!! Você ainda não aprendeu!?!? Quem for contra eu compro, pôrra! Que merda é essa? Caralho! Quem contratou esta besta!?!?”

Um dos aspones, o que parece mais íntimo e está mais próximo ao presidente, cochicha ao seu ouvido: “Ele é apadrinhado do baixinho…”

Cena 10

O presidente se acalma, olha o aspone, caminha em sua direção, passa o braço por cima de seu ombro e caminha com ele em direção à porta, dizendo “Filho, filho… você ainda tem muito o que aprender… vem comigo, você vai gostar da viagem e da festa… depois a gente chama todo mundo de louco e de oposição irresponsável, fala que ninguém nunca fez isso pelo brasil, essas coisas… Você vai ver, não vai dar em nada…”

Declev Reynier Dib-Ferreira
Espectador da peça “Brasil dos Absurdos”

Filme “O policial e o bandido” ou “O policial é o bandido”?

Thursday, December 17th, 2009

Cena 1 – Um homem anda pelas ruas da cidade, de tênis reluzente, jaqueta com bolsos, onde descansam as mãos.

Cena 2 – Dois homens o seguem, a cerca de 20 metros de distância, cada um em uma calçada, com a mão na cintura, dando a entender estarem armados e o possível assalto.

Cena 3 – Em determinado ponto da calçada (pode ser em frente a um banco) os homens armados o abordam, anunciando o assalto.

Cena 4 – O assaltado se assusta e reage, passando-se à briga, com os meliantes tentando tirar a jaqueta do homem. Na confusão, um dos assaltantes consegue retirar a jaqueta da vítima, enquanto ela parte para cima do outro.

Cena 5 – Corta o plano geral para a mão do assaltante, focalizando a arma. A arma dispara. Em câmera lenta, vê-se o projétil sair do cano da arma e percorrer cerca de 10 centímetros, até atingir o abdômem do assaltado, já sem jaqueta.

Cena 6 – Um dos assaltantes dá um chute no corpo caído, enquanto o outro retira os tênis do mesmo.

Cena 7 – Os assaltantes saem correndo, carregando os tênis e a jaqueta.

Cena 8 – Poucos segundos depois, passa pela rua um carro de polícia, ao lado do corpo baleado, em direção aos assaltantes. Um dos policiais está com a mão para fora, apontando uma arma e gritando “Pode parar! Pode parar!”.

Cena 9 – Os assaltantes param, enquanto os policiais freiam o carro, abrem as portas e saem, indo em direção aos mesmos.

Cena 10 – Corta para um dos policiais: “Como é que é imbecis!, eu já falei que não é pra dar tiros por aqui!”

Cena 11 – Um dos quatro, ops!, dois bandidos responde: “Mas o cara reagiu!”.

Cena 12 -O policial dá um tapa na cara dele, que recebe calado, enquanto grita: “Olha a merda que você fez! Amanhã ao invés de um assalto que nem registro vai dar vai ter um assasssinato na minha área, PÔRRA!!!”

Cena 13 – O outro assaltante responde: “Eu sei chefe, mas se nós não fizesse o cara tinha matado nós!”

Cena 14 – “Dá essa merda aqui!”, diz o policial enquanto pega das mãos do assaltante o par de tênis e a jaqueta.

Cena 15 – O assaltante reclama sua parte: “Pô, vamos dividir aí, como sempre…”

Cena 16 – O policial responde: “Dividir é o CARALHO!!! Depois dessa merda isso fica com a gente, pra pagar o aborrecimento!” – Aponta a arma pra eles – “E pode vazando, pode vazando!!!”

Cena 17 – Um dos bandidos sai, puxando o outro: “V’ambora, cara, senão a merda vai ser pior e vai sobrar pra gente”.

Cena 18 – O policial joga os tênis e a jaqueta pela janela traseira da viatura, entram no carro e vão embora, passando novamente em frente do corpo caído, sem parar.

Se eu visse um filme com um roteiro desses eu diria: “Que exagero! Isso não acontece. Assim também é demais, é querer denegrir a imagem da polícia!”

Nem em filme.

Declev Reynier Dib-Ferreira
Espectador do Filme “Brasil dos Absurdos”